Canibalismo nos dias atuais, uma prática comum.

Sunday, 25 August 19

Canibalismo nos dias atuais, uma prática comum

Canibalismo nos dias atuais, uma prática comum.

CARNE HUMANA

    Embora seja um assunto muito indigesto ele é necessário para refletirmos sobre praticas muito próximas de nós. Há alguém por perto, aguardando oportunidade para arrebatar uma nova vítima e saciar sua fome.

        No dicionário encontramos o seguinte resultado para a palavra canibalismo: substantivo masculino. Característica, particularidade ou condição de canibal; que tem como hábito alimentar ou ritual a ingestão de carne humana; antropofagia. Ação ou maneira comportamental que denota e expressa brutalidade; ferocidade. Ação praticada pelo animal que se alimenta ou devora outro(s) da mesma espécie.

        Há relatos de canibalismo em tribos que constituíam o povo Celta. Verificamos um relato ocorrido em torno de 960-560 a.c quando Ben-Hadade, rei da Síria realizou um cerco contra a cidade de Samaria gerando grande fome e escassez de comida. Durante as guerras dos muçulmanos no século XII casos de canibalismos foram relatados. No norte da África, como na Europa, há referências ao canibalismo como último recurso em tempos de fome. Encontramos no Brasil relatos de tribos indígenas que utilizavam da carne do inimigo como alimento. Em 1846 pessoas de um grupo ficaram isoladas no Monte Nevada na Califórnia, para não morrerem se viram obrigadas a comer a carne daqueles que estavam mortos. Em 1972 o “Voo Força Aérea Uruguaia 571” caiu na Cordilheiras dos Andes e os sobreviventes foram resgatados após dias se alimentando da carne dos companheiros falecidos. Ao consultar o assunto na Internet encontramos pessoas acusadas de canibalismo na história recente em várias partes do Munto, um dos casos ocorreu no Brasil em 2012 onde pessoas foram acusadas de fazer empadas com carne humana.

        Mas o porque esta prática tão desprezível ainda se faz presente em nossos dias e o que ela significa?

        Nos mais diversos casos de antropofagia podemos encontrar algumas semelhanças que servem de ponto de partida para discutirmos o assunto. Independente da época, do nível social, da localização geográfica ou outros aspectos, podemos perceber certos padrões na prática canibal, até uma pessoa aparentemente isenta de qualquer suspeita, como você, pode estar utilizando de práticas de canibalismo em seu dia. Mas para continuar precisamos de sua mente aberta para entender, julgar e se achar pertinente aceitar esta verdade: Nós temos instintos canibais.

        Por que praticar o antropofagismo?

  • Sobrevivência. Em vários casos percebemos que este foi o último recurso para evitar a morte. Como nos casos relatados, o canibalismo em certas circunstâncias passou a ser a única maneira de continuar com a vida. Existe um debate intenso sobre ética, moral e a necessidade de viver dentro deste assunto. Nosso intuito não é entrar neste debate mas destacar a sobrevivência como uma justificativa do canibalismo.

  • Rituais religiosos e crenças. Principalmente nos povos tribais, o ato de comer a carne pode ter diversos significados. Quando alguém se apropria da carne do outro, está agindo baseado em suas crenças, sejam elas espirituais, culturais ou pessoais. Esse ato tem um significado com aquele que o pratica.

  • Absorver as propriedades do outro. Quando um guerreiro era levado cativo, os membros da tribo comiam sua carne para que através deste ato pudessem obter suas capacidades. Na própria natureza quando comemos algo, estamos utilizando em nós os nutrientes que aquele alimento possui. Consciente ou inconsciente o fim é adquirir o que o outro tem.

  • Desejo de Morte. O canibal na maioria das vezes mata sua vítima, mesmo quando não o faz, ocorre a morte parcial da vítima. Tudo que utilizamos para nos alimentar precisa ser sacrificado, seja um animal ou um vegetal. Uma maçã ao ser digerida é morta para que possamos nos nutrir dela.

  • Defesa. Embora quase não seja utilizado, em vários momentos o canibalismo foi uma forma de defesa, de afastar os inimigos. A fama da prática serve de alerta para aqueles que pretendem enfrentar o inimigo terrível. Embora pareça um ataque, este ato é uma defesa, uma forma de afastar o mal.

SANGUE

        Agora que entendemos alguns dos motivos que levam ao canibalismo, podemos ter a certeza que este está em nosso meio, em nossos relacionamentos, muito perto de nós. De uma forma mais sútil, porém ativa e devorando aqueles que estão por perto. As essências canibais são as mesmas que movem os relacionamentos em nossa sociedade, mas como as utilizamos fazem a diferença.

        Para sobreviver em uma sociedade que consome os fracos, muitos precisam matar. Matar aqui não é tirar a vida de alguém, mas sim terminar com algo, um objeto, um sentimento, uma oportunidade. Quantas mulheres precisam matar seu relacionamento para salvar suas vidas? Quantas vítimas precisam sacrificar suas rotinas, mudando de casa, mudando de cidade, para se proteger? Quantos sacrificam seus empregos, cursos e outros vínculos para não ficarem doentes? Nesta situação aqueles que precisam sacrificar mesmo como vítimas acabam se culpando. Não é incomum pessoas vítimas de maus-tratos, abusos e coisas semelhantes se sentirem culpadas por terem que tomar uma decisão drástica para se proteger.

        Preconceito pode ser entendido como crenças para o canibalismo. Pessoas sendo julgadas por serem diferentes na religião, cor, raça, sexo e outros motivos causando sofrimento. Assim como os canibais apresentam seus motivos, aqueles que procuram de alguma forma menosprezar o próximo também possuem seus motivos. Para deixar bem claro este entendimento Hitler e seus seguidores tinham suas convicções para realizarem suas atrocidades. Os homens bombas que tanto ouvimos falar nos noticiários têm seus motivos para fazerem o que fazem. E nós muitas vezes também, baseados em nossa cultura tentamos engolir os diferentes, utilizando-se do politicamente correto mas com reflexo de nosso antropofagismo.

        Se um canibal tentava adquirir o poder do outro comendo sua carne, temos pessoas literalmente devorando o outro pelo seu cargo, por sua posição, por seu status e por coisas que gostariam de ter e não tem. Quem nunca já ouviu as expressões “puxou o tapete” ou “passou o rodo”, destinadas para expressar quando alguém toma o cargo, a função, o emprego ou o lugar do outro? Isso é o que fazem os canibais, eliminam o outro procurando ter o que o outro tem. Podemos fazer uma comparação com os efeitos da inveja, que destrói nosso próximo para que possamos ficar com seu poder.

        Temos uma tendência a eliminar o outro, somos ensinados que precisamos ser o melhor em tudo, o máximo no poder. Mas se todos pensam da mesma maneira como assumir o poder em meio a esta competição? Assim como nas antigas cortes os reis eram depostos com a morte e seu assassino assumia o trono, hoje uns matam outros por sucesso. Matam o ser profissional, o atleta, o marido, a esposa, tudo para reinar sem inimigos. Os canibais matavam para praticar seu atos e nós na sociedade de hoje matamos também, principalmente direitos e oportunidades do outro.

        Enfim, existem aqueles que precisam matar para se defender. Alguns sacrificam amizades, outros uma paixão, há aqueles que sacrificam o tempo, lazer e outras coisas mais para sobreviver. Há momentos que nos sentimos tão acoados que nossa única defesa parece ser o ataque. Tentamos nos mostrar fortes, mas por dentro estamos com medo. Há pessoas que por trás de sua arrogância, dureza e frieza tem um ser medroso que prefere se defender atacando para evitar sofrer. O problema de praticar o canibalismo como defesa, é afastar os inimigos e junto com eles afastar os amigos.

        Pra finalizar as práticas dos canibais apenas refletem uma realidade social que muito se parece com a nossa. Em alguns momentos prazerosos podemos atuar como canibais, haja vista que nosso primeiro ato libidinal foi o contato do seio materno sendo devorado por nossa boca. Hoje em muitas coisas que gostamos ou fazemos usamos o termo devorar, comer, sugar, engolir, etc. Por exemplo há quem diga que tem uma paixão devoradora, um amor insaciável. Atos primitivos que nos acompanham desde o início de nossa história.

        Agora após juntos discorrermos o assunto, pare para pensar em quantas práticas canibais participamos. Seja como vítima ou como próprio canibal, em vários momentos nos deparamos com esta situação e a partir delas podemos refletir melhorar nossos atos futuros.

        A intenção deste artigo é que venha servir de introjeção de como temos atuado e qual motivo tem feito nosso extinto canibal aparecer. Pense nisto, reflita e passe essa mensagem para frente.


MATEUS GAMA RODRIGUES

Referências.

[]Dicio. Dicionário Online de Português. Disponível em https://www.dicio.com.br/canibalismo/ , acessado em 29/07/2019

Biblia Sagrada. 2ª Reis 6.29.

http://meioambiente.culturamix.com/natureza/canibalismo-parte-da-historia-humana