Depressão e Síndrome do Panico, uma realidade presente.

Thursday, 17 October 19

Depressão e Síndrome do Panico, uma realidade presente

Depressão e Síndrome do Panico, uma realidade presente.


Após muitos dias trancado em casa, nunca pensei que pegar o carro para calibrar o pneu fosse um dos maiores desafios de minha vida...”


Ao continuar esta leitura você terá a oportunidade de conhecer um episódio real que pode representar muitas pessoas que estejam precisando de ajuda.

ap.mariaemateus.com-depressão

Um jovem casado com uma esposa maravilhosa, pai de dois ótimos filhos, dedicado no trabalho, de fácil relacionamento e prazer por fazer o bem ao próximo. Essa poderia ser a maneira que eu me descreveria momentos antes de passar por um vale escuro, sombrio, que não desejo para ninguém. Fui diagnosticado com depressão, agravada por ataques de panico que me impediram de estar em lugares públicos. Para muitos desavisados, Ataques de Panico ou Síndrome do Panico são “frescuras”, “manhas” sem fundamentos. Mas somente quem viveu isto, sabe o quão torturante e difícil é não conseguir controlar seus sentimentos, seus medos, seus temores e até mesmo a vontade de não estar vivo. Em meu caso, este episódio se desencadeou por grande influência do ambiente de trabalho, mas a fonte ou impulsionador de distúrbios mentais pode estar em qualquer lugar interno ou externo (interno no sentido de estrutura psicossomática e externo no sentido das ações de objetos fora de nosso corpo) causando constrangimento ou sofrimento para o indivíduo.


Devido ao stress constante no trabalho e a cadeia de desapontamentos ocorridos naquele ambiente, alterações passaram a ocorrer em meu corpo físico e em minha estrutura psíquica. Passei a sentir dores no corpo, caroços apareceram em meu pescoço e membros, não conseguia me concentrar nos estudos ou nas atividades diárias, sentia uma irritação nos vários ambientes que convivia e muito mais. Diante desta situação, procurei um clínico geral que na ocasião me receitou um antidepressivo. Como eu não tinha consciência do meu real estado e o próprio médico me informou que poderia interromper o medicamento, assim aconteceu. Após a primeira caixa parei o uso.


Com o passar dos meses eu percebia minha situação piorando até uma certa segunda-feira, manhã de abril de 2017 acordar com meu corpo todo dolorido, com os nervos e tendões rígidos. Nesta mesma ocasião procurei um psicólogo na lista de meu convênio, logo em seguida fui ao pronto atendimento, o médico de plantão me receitou um relaxante muscular mas perguntou se poderia me encaminhar para um psiquiatra porque meu caso claramente não era físico. Eu aceitei o encaminhamento e agendei no mesmo dia uma consulta para semana seguinte.


Após este episódio, no outro dia tentei trabalhar normalmente, no meio do expediente após atritos com meu superior hierárquico, uma intensa carga de trabalho, um cliente me provocou e não aguentei. Larguei meu posto, liguei para meu chefe, disse que estava indo embora. Sai pela porta da empresa, entrei no carro, chorei amarguradamente, por quase meia hora, não entendia o porque chorava, não conseguia parar. Na ocasião ao chegar em casa, minha esposa pensou que eu havia brigado com alguém pelo meu aspecto físico. Passei o resto do dia chorando. Como minhas consultas com a psiquiatra e com a psicóloga estavam marcadas para próxima semana, diariamente ao acordar era tomado por uma emoção muito forte, tentava me aprontar para o trabalho mas ao colocar a mão na maçaneta da porta já começava a chorar. Durante os dias que antecederam minha consulta agendada, precisei ir ao pronto atendimento diariamente para tomar medicamentos e ficar em casa. Na consulta com a psiquiatra pelo meu estado de pertubação fui afastado por 15 dias até o retorno no consultório.


Os acompanhamentos com a psiquiatra e com a psicóloga duraram meses e fiquei afastado do trabalho durante este período. Foi exatamente neste intervalo de tempo que o medicamento inicial foi aumentado a cada consulta, trocado por outro mais forte que também teve a dosagem aumentada por várias vezes. Passei a apresentar com a depressão quadro generalizado de pânico.


Para exemplificar o que sentia, compartilho alguns momentos com vocês e se por algum motivo você está lendo isto de forma desacreditada, pare por aqui! Estou expondo situações íntimas com intuito de talvez ajudar alguém.


a) Eu passei a ter medo de sair do apartamento que morava, tinha a impressão que nas janelas do condomínio vizinho, estaria um de meus chefes ou cliente me observando ou filmando.


b) Não conseguia andar na rua, a todo momento sentia que encontraria um cliente ou um de meus superiores hierárquicos.


c) Tranquei-me em casa, não estava bem, me apavorava até mesmo na igreja ou em ambientes comuns como a casa de familiares.


d) Fiquei meses sem comparecer à empresa com medo de me encontrar com aqueles que lá estavam. Quando consegui ir, só pude entrar com minha esposa segurando em minha mão enquanto eu apertava firmemente a mão dela.


e) Certa vez estava com minha esposa em um mercado para fazer as compras do mês, quando ao olhar para todas aquelas pessoas comecei a suar, tremer, fiquei descontrolado sai do mercado correndo, me fechei no carro, não lembrei de ligar o ar-condicionado e fiquei preso lá até ela chegar.


f) Após muitos dias trancado em casa, nunca pensei que pegar o carro para calibrar o pneu fosse um dos maiores desafios de minha vida. Dirigi-me ao posto mais próximo de casa, peguei a mangueira de calibragem, passei a olhar pessoas que lá estavam. Neste momento fiquei em choque, não conseguia controlar a mangueira do compressor na minha mão de tanto que tremia, minhas pernas e braços não me obedeciam, como que fugindo de um monstro entrei no carro, com dificuldades girei a chave. Quando consegui, saí acelerado, sem manter firme o volante, cruzando as ruas sem parar. Cheguei em casa e fui direto para o quarto, deitei em minha cama, estava sem controle, fiquei lá muito tempo até poder me levantar.


g) Certa ocasião observando o sofrimento que estava causando para minha família, me sentindo inútil, sai de casa com intenção de pegar a primeira estrada, sumir. Tinha a consciência que minha vida é um dom de Deus e eu não deveria tirá-la, mas passei a andar por becos e vielas da cidade esperando que alguém fizesse este serviço para mim. Não consegui literalmente pegar a estrada porque pensei em meus filhos e minha esposa. Procurei um lugar escuro onde provavelmente ninguém me conhecia, sentei-me debaixo de uma árvore, lá fiquei esperando o que fazer, pra onde ir. Eu não queria voltar para casa porque me sentia pesado para minha família. Horas depois, ao ver uma mensagem de meus filhos perguntando onde estava, sai daquele local porque era um lugar de risco, foi até uma avenida, pedi para minha esposa me buscar, aquela noite foi terrível. Nenhuma dor física parecia ser pior que a dor sentimental que estava presente naquele momento. Acreditava que minha vida era um sofrimento intenso.


Ao narrar estes fatos lembrando de tudo que aconteceu precisei diminuir o calor do ar-condicionado no mínimo, respirar fundo porque ainda isto mexe muito comigo. Ao falar volto a reviver um pouco de cada momento passado, sinto partes de meu corpo quentes como em um forno. Hoje após dois anos da crise que passei, ainda tenho dificuldades de lembrar situações que ocorreram, mas graças a DEUS, minha família e os tratamentos estou bem. Sem medicamentos, voltei as minhas atividades, me dedicando em estudar a psicanálise e fazendo análise.


Segundo reportagem daquele período disponível em https://g1.globo.com/bemestar/noticia/depressao-cresce-no-mundo-segundo-oms-brasil-tem-maior-prevalencia-da-america-latina.ghtml, 5,8% da população sofria com depressão, cerca de 11,5 milhões de pessoas. O Brasil é o que tem o maior índice deste tipo de transtorno da América do Sul e no continente Americano só perde para os Estados Unidos.


O mais interessante, eu tinha total consciência de meus atos. Sabia o que era certo ou errado, que fugir, esperar alguém para me matar, ficar trancado não resolveria o problema, mas o desiquilíbrio emocional é tão forte, a dor é tão grande que não nos permite ouvir nossa razão.


Os sintomas começaram a aparecer muito antes, com as dificuldades apresentadas inicialmente. Só fui buscar ajuda quando estava no ápice da crise. Por isto não deixe o preconceito, o medo, a dúvida te impedir de buscar ajuda. Converse primeiro com quem você confie, se este não souber te compreender procure ajuda médica. Como provo da funcionalidade da psicanálise aconselho também buscar um psicanalista que possa te ajudar. Acredite em Deus e na família. Busque valores que o impeçam de fazer algo que depois não tenha mais tempo de se arrepender.


Se precisar conversar ou compartilhar suas experiências deixe seu comentário ou me escreva mateus@mariaemateus.com. Saiba que você não é o único que passa ou passou por esta situação e você pode vencer...


MATEUS GAMA RODRIGUES